quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

ROSA DA ALVORADA


 
                                                           Por Ribamar Júnior

Antes espremer meu cérebro quis que estas linhas nunca cheguem em tuas mãos, nunca. Por que a voz que aqui se expressa é outra, que não é só minha, mas parte da tua, que me cala, pois lendo o teu olhar, posso ouvir os gritos do teu coração. O mais que for entendido aqui, será por acréscimo dos nossos sentimentos e juízos. Nem todo ato pode ser corrigido a tempo, do mesmo modo nem toda a alucinação é apenas alucinação. Se eu estivesse no comando de mim mesmo, teria evitado cruzar o meu olhar com o teu naquela madrugada fria, mas naquele rompante parecia que eu estava encharcado de vinho ou influenciado por substâncias digeridas das papoulas apiáceas. E tudo isso, por quê? Lancei-me numa experiência extremamente difícil e perigosa, e descobri que as pétalas mais belas e suaves não são as ofensivas como se presume num simples olhar. O mesmo vale para este par de olhos verdes que tu tens os mais belos que já vi, me faz lembrar o perfume das rosas das alvoradas, que excitam os românticos para depois afogá-los em sonhos e arrependimentos tardios. Porém neste momento sinto-me “triste” e não consigo lembrar-me das minhas experiências com amarílis tão enaltecida por Virgilio.  Porém prefiro falar das clematites e dedaleiras, que desabrocham nos caramanchões da antiga Grécia, França e Inglaterra. Estas, se ingeridas com vinho tinto, podem revelar que a razão caminha no rastro da loucura. Loira, como você pode perceber continuo hesitante e, neste momento de devoração de mim, nada me ocorre senão pelos avessos dos meus sentidos. Mas em desobediência aos meus juízos formulados por mim, tentarei burlar as minha limitações para aprender nas entrelinhas do teu abraço, algo que me fecha no seu anonimato. Ora nada melhor que assassinar o tempo, ler poemas e contigo ingerir vinho e contemplar a embriaguez do amor. E por falar de amor, sinto-me tão desperto, como o sol da manhã que ilumina as trepadeiras no pomar, acredite-me sinto tão cheio com você, que na afloração das minhas idéias não consigo antever nenhum resultado trágico para nós. Impuro na verdade divina, se Deus não tivesse cruzado o meu caminho com o teu, com toda a minha pueril experiência eu jamais teria conhecido e nem desvelado o mistério profano que constitui o verdadeiro estado de graça, que antecederam a nossa exaustão. 

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